Estudo detectou mudanças inesperadas na temperatura da estratosfera de Netuno
Netuno fotografado pela Voyager 2. A imagem é uma fotografia do planeta, não um mapa de temperatura do estudo. Crédito: NASA/JPL.
Um estudo publicado em junho de 2026 detalhou como a temperatura varia entre diferentes regiões e camadas da atmosfera de Netuno. Com observações do Atacama Large Millimeter/submillimeter Array (ALMA), no Chile, os pesquisadores identificaram contrastes entre o equador, as latitudes médias e o polo sul, incluindo uma região especialmente fria em camadas mais profundas da atmosfera.
O resultado amplia o retrato da estrutura térmica do planeta, mas não demonstra que Netuno esteja esfriando neste momento. Os dados analisados pelo estudo foram obtidos em 2016: a novidade é a análise espacial mais detalhada, não uma medição recente da evolução da temperatura ao longo dos anos.
Um mapa de temperaturas em diferentes latitudes
A equipe analisou observações de uma emissão de monóxido de carbono, uma molécula presente na atmosfera netuniana. O sinal foi registrado na frequência de aproximadamente 345,8 gigahertz. A resolução espacial do ALMA permitiu examinar dezenas de regiões do disco aparente do planeta, em vez de tratar Netuno como um único ponto de luz.
A partir desses dados, os pesquisadores estimaram a temperatura em diferentes latitudes e níveis de pressão. A análise abrangeu partes da alta troposfera e da baixa estratosfera — camadas atmosféricas que ajudam a revelar como o calor e os gases se distribuem acima da região onde ocorrem os fenômenos meteorológicos mais visíveis.
Na baixa estratosfera, entre aproximadamente 10 e 40 milibares de pressão, os resultados indicam temperaturas menores nas latitudes médias e regiões mais quentes no equador e no polo sul. Esse padrão é compatível com estruturas térmicas observadas anteriormente por outras missões e telescópios.
Uma região fria sob o polo sul
Uma das características destacadas pelo estudo aparece em camadas mais profundas. Entre cerca de 300 e 600 milibares, os pesquisadores identificaram uma região fria sobre o polo sul. O ponto mais frio estimado chega a aproximadamente 45 kelvins — cerca de −228 °C — em torno do nível de 400 milibares e próximo da latitude 80° sul.
Essa estrutura não significa que toda a região polar, nem o planeta inteiro, tenha essa temperatura. Trata-se de uma estimativa para uma camada específica da atmosfera. A diferença entre as temperaturas em níveis distintos mostra que a atmosfera de Netuno tem uma estrutura vertical complexa, que não pode ser resumida por um único valor médio.
O que o estudo de 2026 atualiza — e o que não atualiza
Em 2022, uma análise de imagens térmicas obtidas entre 2003 e 2020 havia apontado que a temperatura média global da estratosfera diminuiu cerca de 8 °C entre 2003 e 2018. O mesmo trabalho identificou um aquecimento de aproximadamente 11 °C sobre o polo sul entre 2018 e 2020. A causa dessas mudanças continua sem explicação definitiva.
O estudo publicado em 2026 não estende essa série temporal: seus dados foram coletados em 2016. Em vez de mostrar o que aconteceu com as temperaturas nos anos mais recentes, ele oferece mais detalhes sobre diferenças entre latitudes e profundidades atmosféricas. Portanto, não confirma se o resfriamento observado anteriormente prosseguiu, parou ou se inverteu depois de 2020.
Por que acompanhar a atmosfera de Netuno
Netuno leva cerca de 165 anos terrestres para completar uma órbita ao redor do Sol, e suas estações duram décadas. Mesmo assim, sua atmosfera apresenta ventos intensos e variações que podem ocorrer em escalas bem menores. Mapear a temperatura em diferentes regiões ajuda os cientistas a investigar a circulação atmosférica e a entender como ela se relaciona com as nuvens e os gases do planeta.
As observações do ALMA também são sensíveis a níveis que podem ser difíceis de estudar por outros métodos. Combinadas a medições feitas por telescópios infravermelhos e por sondas espaciais, elas ajudam a construir um quadro mais completo da atmosfera netuniana.
A descoberta, portanto, não é que Netuno esteja atualmente ficando mais frio. O avanço está em revelar com maior detalhe que suas temperaturas variam conforme a latitude e a profundidade. Para saber como essas condições mudaram depois de 2016, serão necessárias novas observações comparáveis ao longo do tempo.
Fontes: Carrión-González et al., estudo publicado em Astronomy & Astrophysics em 2026; DOI do estudo; NASA — estudo anterior sobre as mudanças de temperatura observadas entre 2003 e 2020.