O mistério de Vênus: dados da Akatsuki ajudam a revelar as propriedades do material que absorve radiação ultravioleta.

Vênus é frequentemente descrito como um planeta coberto por uma camada uniforme de nuvens amareladas. Porém, quando observado em comprimentos de onda ultravioleta, o planeta apresenta grandes manchas e faixas escuras que se deslocam rapidamente pela atmosfera.
Essas estruturas são conhecidas pelos astrônomos há quase um século, mas sua origem continua sendo um dos maiores mistérios da atmosfera venusiana. A principal suspeita é a existência de um material desconhecido capaz de absorver intensamente a radiação ultravioleta e parte da luz azul recebida do Sol.

Dados obtidos pela sonda japonesa Akatsuki, combinados com modelos atmosféricos e estudos de laboratório, agora estão ajudando os cientistas a estabelecer limites mais precisos para as propriedades desse material.

Os resultados não identificam definitivamente a substância, mas revelam que ela teria de ser muito mais eficiente na absorção de luz do que muitos dos candidatos anteriormente propostos.

As misteriosas manchas ultravioletas de Vênus

Na luz visível, Vênus parece relativamente uniforme, com uma coloração clara e amarelada. Isso acontece porque o planeta é completamente envolvido por uma espessa camada de nuvens, formada principalmente por gotículas de ácido sulfúrico misturado com água.
Entretanto, imagens feitas no ultravioleta revelam uma aparência muito diferente. Algumas regiões das nuvens ficam escuras, enquanto outras refletem mais radiação. As manchas podem mudar de forma, intensidade e localização ao longo do tempo.
As estruturas também acompanham a chamada super-rotação atmosférica de Vênus. A atmosfera superior do planeta dá uma volta completa ao redor de Vênus em aproximadamente quatro dias, enquanto o planeta leva cerca de 243 dias terrestres para completar uma rotação em torno do próprio eixo.
Esse movimento extremamente rápido transporta as manchas ultravioletas pela face do planeta.
A explicação mais aceita é que as áreas escuras contêm maior quantidade do chamado absorvedor ultravioleta desconhecido, enquanto as regiões mais claras possuem menor concentração desse material.

O papel da sonda Akatsuki

A Akatsuki foi lançada pela agência espacial japonesa JAXA em maio de 2010 e entrou na órbita de Vênus em dezembro de 2015. A sonda foi criada para estudar a atmosfera, as nuvens, os ventos e a circulação planetária.
Um dos seus instrumentos mais importantes foi o Ultraviolet Imager, ou UVI. A câmera observou Vênus principalmente em dois comprimentos de onda:

283 nanômetros, no ultravioleta;
•365 nanômetros, no ultravioleta próximo.

Ao analisar milhares de imagens, os pesquisadores puderam estudar não apenas o brilho de diferentes regiões do planeta, mas também como Vênus refletia a luz em diferentes ângulos de observação.

Esse tipo de análise é conhecido como curva de fase. Ela mostra como o brilho aparente do planeta muda conforme varia o ângulo entre o Sol, Vênus e a sonda.
A técnica permite obter informações sobre:

•o tamanho das partículas nas nuvens;
•a altitude em que o absorvedor está localizado;
•a quantidade de luz espalhada pelas gotículas;
•a eficiência com que o material absorve radiação.

Em um estudo publicado em 2021, pesquisadores analisaram três anos de observações da Akatsuki. Eles concluíram que o absorvedor poderia estar misturado em uma grande parte das nuvens superiores ou concentrado em uma camada mais fina, imediatamente abaixo do topo das nuvens.
Os dados também indicaram que, para explicar o comportamento observado em 365 nanômetros, o material teria de absorver luz de maneira muito eficiente dentro de uma região próxima ao topo das nuvens.
Já no comprimento de onda de 283 nanômetros, a análise ficou mais complexa. Nessa faixa, tanto o absorvedor desconhecido quanto o dióxido de enxofre — o conhecido SO₂ — absorvem radiação. Por isso, não é simples separar a contribuição de cada um.

Um novo limite para o absorvedor

Em um estudo publicado online em 25 de agosto de 2026 na revista Astrobiology, Jan Spacek e seus colegas utilizaram observações remotas de Vênus e um modelo de transferência radiativa.

Esse modelo simula o comportamento da luz ao atravessar a atmosfera e interagir com as gotículas das nuvens. Ele considera dois fenômenos importantes:

1.Absorção, quando o material retém parte da radiação;

2.Espalhamento, quando as partículas desviam a luz em diferentes direções.

Essa distinção é fundamental. As nuvens de Vênus espalham a luz com muita eficiência. Portanto, não é possível observar uma imagem brilhante do planeta e concluir diretamente que o líquido dentro das gotículas também seja claro.

Os pesquisadores fizeram uma espécie de experimento teórico: calcularam quão escuro teria de ser o líquido presente dentro das gotículas para reproduzir o brilho observado nas imagens de Vênus.

O resultado foi surpreendente.

O modelo indicou que o coeficiente de absorção do líquido poderia atingir aproximadamente 1.278 cm⁻¹ em 375 nanômetros. Em termos simples, isso significa que o material precisaria absorver uma quantidade extraordinariamente grande de radiação nessa região do espectro.

A absorção também teria de cair rapidamente em comprimentos de onda maiores. Segundo o estudo, o valor calculado diminuiria para menos de 54 cm⁻¹ em 455 nanômetros.

Essa queda acentuada é uma informação importante porque elimina ou enfraquece alguns candidatos.

A hipótese de moléculas orgânicas.

Para explicar uma absorção tão intensa, os cientistas consideraram a possibilidade de o material ser formado por moléculas orgânicas conjugadas.
Na química, o termo “orgânico” normalmente se refere a substâncias baseadas em carbono. Isso não significa, automaticamente, que o material tenha origem biológica.

Algumas moléculas orgânicas possuem estruturas capazes de absorver intensamente a radiação ultravioleta e azul. Entre elas estão compostos com sistemas conjugados, nos quais elétrons podem se deslocar por várias partes da molécula.

Os pesquisadores compararam os resultados com substâncias conhecidas por terem grande capacidade de absorção, incluindo pigmentos do tipo porfirina.

Para que um material com propriedades semelhantes às de certos pigmentos porfirínicos reproduzisse a absorção calculada, seria necessária uma concentração aproximada de 12 gramas por litro.

Outros exemplos apresentados no estudo exigiriam concentrações diferentes:

•vitamina A: aproximadamente 7,2 gramas por litro;
•clorofila “a”: aproximadamente 9,7 gramas por litro;
•betacaroteno: aproximadamente 4,9 gramas por litro;
•quinina: aproximadamente 73 gramas por litro.

Esses valores não significam que exista vitamina A, clorofila, betacaroteno ou quinina em Vênus. Eles foram utilizados apenas como exemplos para mostrar a eficiência óptica necessária.
Os autores deixam claro que não estão propondo clorofila, hemoglobina ou qualquer pigmento biológico específico como o absorvedor venusiano.

O problema do ácido sulfúrico

As nuvens de Vênus são um ambiente extremamente hostil. As gotículas possuem alta concentração de ácido sulfúrico e estão submetidas a condições químicas muito diferentes das encontradas na Terra.
Por isso, uma molécula orgânica presente nas nuvens teria de resistir à ação do ácido ou permanecer em algum tipo de equilíbrio químico estável.

Estudos de laboratório mostram que algumas substâncias orgânicas, quando colocadas em ácido sulfúrico concentrado, podem formar misturas escuras e semelhantes ao alcatrão. Essas misturas absorvem luz em uma ampla faixa do espectro, incluindo grande parte da luz visível.

Esse comportamento, porém, não combina perfeitamente com o padrão observado em Vênus. O absorvedor venusiano parece apresentar uma queda relativamente rápida na absorção entre 365 e 455 nanômetros.
Isso sugere que, caso seja orgânico, o material talvez seja uma molécula bem definida ou uma pequena combinação de moléculas com propriedades semelhantes — e não apenas uma mistura aleatória de compostos escuros.

E se o absorvedor for inorgânico?

A hipótese orgânica não é a única possibilidade.
Ao longo das décadas, mais de 20 substâncias foram propostas como possíveis responsáveis pelas manchas ultravioletas de Vênus. Entre os candidatos estão:

•dióxido de enxofre;•compostos de cloro;
•partículas de enxofre;
•cloretos de ferro;
•minerais contendo ferro e enxofre;
•moléculas gasosas como OSSO e S₂O.

Um estudo publicado em 2024 sugeriu que reações entre ferro férrico e ácido sulfúrico poderiam produzir minerais como a romбoclase e o sulfato férrico ácido. Esses compostos poderiam explicar algumas características de absorção entre 200 e 500 nanômetros.

O novo modelo, contudo, mostra que muitos absorvedores inorgânicos teriam de estar presentes em quantidade muito elevada para produzir o efeito observado.

Um exemplo é o cloreto férrico, ou FeCl₃. Embora seu perfil de absorção possa se parecer com o do absorvedor de Vênus em termos relativos, sua eficiência absoluta seria baixa demais. Uma extrapolação simples indicaria que seria necessária uma concentração próxima de 1,3 quilograma por litro para alcançar o valor calculado pelo modelo.

Isso não elimina completamente os compostos inorgânicos, mas cria uma dificuldade importante para essa explicação.

A influência no clima de Vênus

O absorvedor ultravioleta não é apenas uma curiosidade visual. Ele desempenha um papel importante no clima do planeta.
Estimativas indicam que o material absorve aproximadamente metade da energia solar depositada no topo das nuvens de Vênus. Essa energia aquece a atmosfera e influencia a circulação dos ventos.
Mudanças na quantidade do absorvedor podem alterar:

•a temperatura das nuvens;
•a circulação atmosférica;
•a intensidade da super-rotação;
•a formação de ondas atmosféricas;
•a distribuição de gases como o dióxido de enxofre.

Observações anteriores indicaram que a abundância do absorvedor pode variar significativamente com o tempo. Assim, o material pode participar de ciclos químicos e atmosféricos que ainda não são completamente compreendidos.

A Akatsuki encerrou sua missão

A JAXA encerrou oficialmente as operações da Akatsuki em 18 de setembro de 2025.
A comunicação com a espaçonave havia sido perdida no final de abril de 2024, depois de um problema relacionado ao controle de atitude. Apesar das tentativas de recuperação, a agência japonesa decidiu encerrar a missão devido à idade avançada da sonda, que já havia ultrapassado sua vida útil planejada.
Mesmo sem realizar novas observações, a Akatsuki deixou um grande conjunto de dados que continuará sendo analisado durante muitos anos.
As imagens ultravioletas, os registros de temperatura e os estudos sobre a circulação atmosférica ainda podem revelar novas informações sobre o planeta.

O mistério continua.

O novo estudo não descobriu definitivamente qual é o material responsável pelas manchas ultravioletas. O que ele fez foi estabelecer uma exigência mais rigorosa: qualquer candidato precisa absorver muita luz, estar presente em concentração elevada ou reunir as duas características.

A possibilidade de moléculas orgânicas permanece interessante, mas ainda está longe de ser uma confirmação de vida em Vênus.
Para solucionar o mistério, será necessário enviar uma sonda capaz de atravessar as nuvens e analisar diretamente suas partículas. Uma missão desse tipo poderia procurar moléculas orgânicas, medir a fluorescência das gotículas e determinar sua composição química.
Os pesquisadores também destacam que observações futuras em diferentes comprimentos de onda serão essenciais. A análise simultânea do ultravioleta, da luz visível e do infravermelho poderá ajudar a separar os efeitos do dióxido de enxofre, das partículas das nuvens e do absorvedor desconhecido.
Por enquanto, Vênus continua escondendo sua identidade atrás de uma atmosfera tóxica, quente e dinâmica. Mas, graças aos dados da Akatsuki e aos novos modelos científicos, os pesquisadores estão cada vez mais próximos de compreender o material que transforma o planeta em uma paisagem escura e mutável quando vista no ultravioleta.

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