Uma longa faixa branca que parece sair de um vulcão marciano não é fumaça nem sinal de uma erupção. É uma nuvem formada por cristais de gelo de água, que pode se estender por até 1.800 quilômetros a partir de Arsia Mons. Um novo estudo, baseado em observações da sonda Mars Express e em simulações da atmosfera do planeta, propõe uma explicação incomum para a formação dessa estrutura: o vapor d’água poderia congelar diretamente em partículas de gelo, sem precisar se condensar sobre poeira ou outros grãos.

Uma nuvem que aparece e desaparece
Conhecida como Nuvem Alongada de Arsia Mons — ou AMEC, na sigla em inglês —, a estrutura aparece durante a primavera e o verão do hemisfério sul de Marte, período que coincide com a estação mais empoeirada do planeta. Ela se forma a favor do vento, a oeste do vulcão, cresce ao longo da manhã e depois desaparece à medida que o gelo evapora. Esse ciclo pode se repetir diariamente durante vários meses.
Arsia Mons tem cerca de 20 quilômetros de altura. Quando as condições são favoráveis, a nuvem pode alcançar aproximadamente 1.800 quilômetros de comprimento. Apesar da aparência de uma pluma de fumaça, sua cor branca e sua evolução são compatíveis com uma nuvem de cristais de gelo de água — não com material expelido por uma erupção.
Também é importante não confundir Arsia Mons com Olympus Mons. Os dois são vulcões marcianos distintos. E a imagem divulgada pela Agência Espacial Europeia em 2026 não é uma fotografia feita naquele ano: ela foi construída com dados obtidos pela Mars Express em setembro de 2018. A novidade de 2026 é o estudo que investiga como a nuvem se forma.
O que há de diferente na explicação
Na formação mais comum das nuvens, o vapor d’água se condensa sobre partículas microscópicas já suspensas no ar. Na Terra, podem servir de “sementes” para as gotículas partículas de poeira, sal ou outros aerossóis. Em Marte, os modelos normalmente consideram a poeira como um componente importante desse processo.
A equipe liderada pelo pesquisador Jorge Hernández-Bernal testou outra possibilidade: a nucleação homogênea. Nesse processo, o vapor d’água formaria partículas de gelo diretamente, sem se apoiar primeiro em grãos de poeira ou em outros núcleos. Embora a possibilidade exista na teoria, ela exige condições atmosféricas extremas e não havia sido identificada de forma convincente em uma atmosfera planetária.
Segundo os pesquisadores, ao incluir esse mecanismo em um modelo meteorológico de Marte, foi possível reproduzir características marcantes da AMEC que simulações anteriores não conseguiam explicar bem. O resultado oferece a primeira evidência de que a nucleação homogênea do vapor d’água pode ocorrer na atmosfera de outro planeta.
Como Arsia Mons pode ajudar a produzir gelo
A explicação proposta começa com os ventos que passam pelo enorme vulcão. A altura e o relevo de Arsia Mons perturbam o fluxo de ar e geram uma onda atmosférica que empurra massas úmidas para altitudes maiores. De acordo com as simulações, esse movimento pode elevar o ar por vários quilômetros em poucos minutos.
Ao subir rapidamente, o ar esfria. O modelo indica uma queda de cerca de 30 °C em apenas dez minutos, acompanhada por um forte aumento da umidade relativa. Nessas condições excepcionais, o vapor poderia congelar diretamente e formar as partículas da nuvem. A posição do vulcão e a atmosfera rarefeita de Marte parecem favorecer esse processo.
Isso não significa que a sonda tenha observado cada etapa microscópica da formação do gelo. A conclusão vem da comparação entre as características da nuvem observada e os resultados do modelo. A própria equipe reconhece que algumas partes da simulação ainda não reproduzem perfeitamente tudo o que aparece nas observações.
Por que a descoberta importa
Entender a AMEC pode ajudar cientistas a aprimorar os modelos da atmosfera marciana e a explicar outras nuvens que se formam em condições extremas. O resultado também chama atenção para a possibilidade de que processos considerados raros ou apenas teóricos tenham importância real em diferentes ambientes planetários — algo que poderá ser relevante, por exemplo, ao estudar atmosferas de outros planetas.
Por enquanto, a nuvem de Arsia Mons continua sendo um fenômeno atmosférico recorrente, não uma erupção vulcânica. O estudo publicado na revista Nature Geoscience apresenta uma explicação promissora para o seu comportamento, mas novas observações e modelos serão necessários para testar melhor os detalhes do mecanismo.
Fontes: Agência Espacial Europeia (ESA) · Nature Geoscience · versão gratuita do estudo no arXiv.