Modelos indicam que o gás do cometa 3I/ATLAS se expande mais devagar que o usual

Imagem do cometa interestelar 3I/ATLAS feita pelo telescópio espacial Hubble
O Hubble registrou o 3I/ATLAS em 21 de julho de 2025, quando o cometa estava a cerca de 3,8 unidades astronômicas do Sol. Crédito: NASA, ESA, David Jewitt (UCLA); processamento da imagem: Joseph DePasquale (STScI).

O cometa interestelar 3I/ATLAS pode estar expelindo gás a uma velocidade muito menor que a observada em cometas do Sistema Solar. Um estudo publicado no The Planetary Science Journal concluiu que os dados obtidos em dezembro de 2025 são mais bem explicados por um fluxo gasoso com velocidade de aproximadamente 0,3 quilômetro por segundo — cerca de 1.080 quilômetros por hora.

Esse valor corresponde a aproximadamente metade da velocidade normalmente adotada para cometas do Sistema Solar observados à mesma distância do Sol. O resultado, porém, não significa que o próprio 3I/ATLAS esteja viajando mais devagar pelo espaço: os pesquisadores analisaram o movimento do gás que escapa do cometa e forma parte de sua coma, a nuvem de gás e poeira ao redor do núcleo.

O que os pesquisadores observaram

A equipe liderada pela astrônoma Anita Cochran observou o 3I/ATLAS em 9 de dezembro de 2025, usando o instrumento VIRUS, instalado no telescópio Hobby-Eberly, no Texas, Estados Unidos. Naquela ocasião, o cometa já se afastava do Sol e estava a aproximadamente 2,03 unidades astronômicas da estrela — pouco mais de duas vezes a distância média entre a Terra e o Sol.

O instrumento permitiu estudar a coma em diferentes posições, alcançando regiões a mais de 85 mil quilômetros do núcleo na direção do Sol. Nos espectros, os cientistas identificaram moléculas comuns em cometas, além de sinais particularmente fortes de ferro e níquel em forma gasosa.

Para interpretar como esses materiais se distribuem ao redor do núcleo, a equipe usou o modelo de Haser, uma ferramenta matemática bastante empregada no estudo de comas cometárias. Ao comparar os modelos com as observações, os pesquisadores encontraram um melhor ajuste quando consideraram que o gás se expandia a cerca de metade da velocidade típica usada para cometas do Sistema Solar na mesma distância solar.

A velocidade foi medida diretamente?

Não exatamente. O espectrógrafo VIRUS tem baixa resolução espectral, o que impediu a equipe de determinar diretamente a velocidade do fluxo gasoso com aqueles dados. O valor próximo de 0,3 km/s foi adotado nos modelos para reproduzir a distribuição observada dos materiais na coma.

Essa estimativa é compatível com medições anteriores feitas por radiotelescópios. Em observações de outra equipe, quando o cometa estava mais perto do Sol, o gás apresentou velocidades diferentes conforme a molécula analisada: cerca de 0,37 km/s para os compostos estudados. Os autores do novo trabalho também compararam seus resultados com essas medições e com o comportamento esperado para cometas conhecidos.

Portanto, a conclusão não deve ser lida como se os cientistas tivessem acompanhado diretamente cada partícula de gás e cronometrado sua saída. Trata-se de uma interpretação baseada na combinação entre observações da coma, modelos e resultados independentes.

O dióxido de carbono pode ter influência

Uma explicação possível é que a composição da coma do 3I/ATLAS seja diferente da encontrada em muitos cometas do Sistema Solar. O objeto já foi observado com abundância elevada de dióxido de carbono. Como suas moléculas são mais pesadas que as de água, um gás rico nesse composto poderia alterar a expansão do material ao redor do núcleo.

Essa hipótese ainda não foi demonstrada como causa definitiva. Os pesquisadores apontam que um fluxo mais lento pode estar relacionado à composição incomum do cometa, mas são necessárias novas observações e análises para esclarecer o mecanismo.

O estudo também relata fortes linhas espectrais de ferro e níquel. A presença desses elementos em forma gasosa é interessante porque, nas condições esperadas, eles não se vaporizariam facilmente. O achado amplia as perguntas sobre como os materiais da superfície do 3I/ATLAS são liberados e transportados pela coma.

Não confundir com a velocidade do cometa

A velocidade orbital do 3I/ATLAS é outro assunto. Segundo a NASA, o cometa viajava a cerca de 221 mil quilômetros por hora quando foi descoberto. A gravidade do Sol aumentou essa velocidade durante a aproximação, e o objeto chegou a aproximadamente 246 mil quilômetros por hora perto do periélio — o ponto de sua trajetória mais próximo do Sol. Ao se afastar, voltou a desacelerar, como previsto para um corpo que passa pelo campo gravitacional solar.

O novo estudo não anuncia uma mudança inesperada nessa trajetória. Seu resultado trata da velocidade de expansão do gás na coma, estimada como menor que a típica em cometas do Sistema Solar. Separar esses dois movimentos é essencial: o cometa continua atravessando o espaço em alta velocidade, enquanto o material que ele libera se expande ao seu redor.

Uma observação que abre novas perguntas

O estudo se baseia em observações de uma única data, então não mostra como a velocidade do gás pode ter variado ao longo da passagem do cometa pelo Sistema Solar. Ainda assim, a análise detalhada de uma região extensa da coma oferece pistas sobre as diferenças entre o 3I/ATLAS e os cometas formados ao redor do Sol.

Como o 3I/ATLAS veio de outro sistema planetário, suas características permitem investigar como materiais cometários se comportam em ambientes diferentes. Novas observações poderão esclarecer se o fluxo mais lento foi causado principalmente pela composição dos gases, por mudanças na atividade do núcleo ou por uma combinação desses fatores.

Fontes