O que as gravuras da Pedra do Ingá têm a ver com astronomia?

As gravuras da Pedra do Ingá, na Paraíba, já foram interpretadas como um mapa de estrelas, um calendário solar e até uma representação do zodíaco. Mas o que a arqueoastronomia consegue afirmar — e o que ainda permanece no campo das hipóteses?

Foto: Ismael Vaz / Space News Pb

Às margens do rio Ingá, no município paraibano de Ingá, um grande painel de gravuras em pedra chama a atenção de pesquisadores e visitantes. As formas esculpidas no paredão despertam perguntas sobre quem as produziu, quando foram feitas e que significados poderiam ter.

Entre as interpretações propostas ao longo do tempo, algumas relacionam as gravuras à observação do céu. Para examinar essas ideias, porém, não basta encontrar desenhos que pareçam estrelas ou constelações. A arqueoastronomia compara evidências arqueológicas com conhecimentos sobre o céu, levando em conta o contexto cultural, a orientação das figuras e os métodos usados para chegar a cada interpretação.

Um patrimônio arqueológico da Paraíba

As Itacoatiaras do Rio Ingá são protegidas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 1944. O sítio também aparece na Lista Indicativa do Brasil à UNESCO, uma etapa de candidatura que não equivale à inscrição definitiva como Patrimônio Mundial.

Essa importância arqueológica é reconhecida independentemente de qualquer interpretação astronômica. As gravuras constituem um registro cultural cuja autoria e significado não podem ser definidos apenas pela semelhança com figuras conhecidas no céu atual.

As gravuras seriam uma representação de Órion?

Uma das hipóteses mais conhecidas relaciona parte das marcas na pedra à constelação de Órion. Em um estudo iniciado em 1962 e publicado posteriormente, o engenheiro José Benício de Medeiros comparou algumas gravuras a estrelas desse conjunto celeste.

Em uma revisão sobre a arqueoastronomia no Brasil, os pesquisadores Germano Bruno Afonso e Carlos Aurélio Nadal discutem limitações dessa interpretação, inclusive problemas na datação proposta a partir da posição do ponto vernal. A relação entre as figuras da rocha e as estrelas, portanto, não é uma identificação comprovada.

Calendário solar ou zodíaco?

Outras propostas interpretaram as pequenas depressões da rocha como marcas de um possível calendário solar, que acompanharia o movimento aparente do Sol ou de sua sombra. A hipótese enfrenta questões sobre como as marcas corresponderiam ao ciclo observado e qual seria o método usado por seus criadores.

Também houve uma leitura que associou algumas gravuras à eclíptica e a figuras do zodíaco. Afonso e Nadal apontam dificuldades nesse tipo de comparação: reconhecer constelações em desenhos depende de critérios claros, pois diferentes agrupamentos de estrelas podem formar figuras distintas quando ligados de maneiras diferentes.

Essas interpretações ajudam a contar a história das tentativas de compreender o painel, mas não estabelecem que as Itacoatiaras sejam um calendário ou um mapa do céu. Para sustentar uma conclusão desse tipo, seriam necessárias evidências arqueológicas e astronômicas que permitissem testar a hipótese de modo consistente.

O céu e os conhecimentos indígenas

O estudo do céu também precisa considerar os conhecimentos dos povos indígenas e a forma como diferentes culturas organizam suas constelações, narrativas e calendários. Essas tradições ampliam as perguntas que os pesquisadores podem fazer, mas não servem, por si só, como prova do que os autores das gravuras de Ingá pensavam.

Uma comparação cultural pode ser útil desde que seja feita com cuidado e com participação adequada das comunidades envolvidas. Não é possível presumir que uma interpretação registrada hoje corresponda automaticamente aos significados atribuídos às gravuras no passado.

O que a pesquisa permite concluir?

A Pedra do Ingá é um sítio arqueológico de grande importância para a Paraíba e já inspirou diferentes hipóteses sobre uma possível relação entre as gravuras e o céu. As propostas de associação com Órion, com um calendário solar ou com o zodíaco são interpretações discutidas na literatura, não confirmações de que o painel seja um mapa astronômico.

O interesse científico está justamente em investigar essas possibilidades sem transformar semelhanças visuais em certezas. Arqueologia, astronomia, história e conhecimentos indígenas podem contribuir para novas perguntas — sempre distinguindo o que as evidências sustentam do que ainda precisa ser demonstrado.

Fontes