Nova técnica pode ajudar a buscar sinais de vida fora da Terra
Uma nova técnica de análise pode ajudar futuras missões espaciais a investigar possíveis sinais químicos de vida fora da Terra. Desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Osaka, no Japão, o método combina medições elétricas e inteligência artificial para identificar aminoácidos — moléculas que formam as proteínas — e distinguir suas formas espelhadas.
O estudo foi publicado em 5 de outubro de 2026 na revista científica Nature Communications. Os pesquisadores testaram o método em soluções preparadas em laboratório e em extratos do meteorito Murchison e de solos do deserto do Atacama, no Chile. O trabalho apresenta um avanço em técnicas de análise química, mas não relata a descoberta de vida extraterrestre.
A pista está nas formas das moléculas
Algumas moléculas existem em duas formas que são imagens espelhadas uma da outra, como as mãos direita e esquerda. Essas versões são chamadas de enantiômeros. Embora tenham a mesma composição química, a proporção entre elas pode ajudar cientistas a investigar como as moléculas se formaram.
Na vida terrestre, quase todos os aminoácidos usados para formar proteínas pertencem à forma chamada L. Em muitos processos não biológicos, as formas L e D tendem a surgir em proporções semelhantes. Por isso, um desequilíbrio entre elas pode ser investigado como um possível biossinal: uma pista que merece análise, mas que, sozinha, não prova que houve vida.
Essa distinção interessa à astrobiologia, campo que estuda a origem e a possibilidade de vida no Universo. Se uma missão encontrar aminoácidos em Marte ou em outro mundo, medir a proporção entre suas formas poderá ajudar a compreender a origem dessas moléculas. Ainda assim, processos não biológicos também podem produzir desequilíbrios, e a contaminação terrestre pode confundir os resultados.
Como funciona o método
A equipe usou dois fios muito finos de ouro separados por uma distância nanométrica. Quando uma molécula atravessa o pequeno espaço entre eles, altera a corrente elétrica que passa pelo sistema. Essas variações geram sinais que um programa de aprendizado de máquina analisa para identificar as moléculas.
Nos testes com moléculas individuais, os pesquisadores conseguiram distinguir as formas L e D de aminoácidos com mais de 80% de precisão. Em um teste cego com 39 aminoácidos, o sistema identificou a identidade e a forma das moléculas com desempenho superior ao acaso. A equipe também analisou misturas para avaliar como o método se comporta em amostras mais complexas.
Os experimentos incluíram extratos do meteorito Murchison e de amostras do Atacama. O Murchison é conhecido por conter compostos orgânicos. Já o Atacama é estudado como ambiente extremo e pode ajudar a testar técnicas pensadas para futuras explorações de Marte.
Ainda não é um detector pronto para uma missão
As análises de amostras naturais mostraram que ainda há desafios. A composição complexa dos materiais e os sinais de fundo podem dificultar a identificação. Além disso, os resultados do método elétrico nem sempre corresponderam aos obtidos por técnicas laboratoriais de referência: a concordância variou de acordo com a amostra e o aminoácido analisado.
Os autores descrevem a abordagem como uma análise direcionada a um conjunto limitado de moléculas — não como uma leitura completa de tudo o que existe numa amostra. Para avançar, será preciso ampliar os testes, melhorar a identificação de interferências e validar o método em condições mais próximas das encontradas numa missão espacial.
Um instrumento elétrico compacto poderia, no futuro, ser útil em sondas ou veículos robóticos, nos quais tamanho e complexidade dos equipamentos são fatores importantes. Mas o estudo não demonstra que o sistema já esteja pronto para ser enviado a outro planeta: os experimentos foram conduzidos em laboratório, com amostras preparadas e procedimentos específicos.
A novidade, portanto, não é a detecção de vida, mas uma possível nova ferramenta para procurar pistas químicas. Para avaliar se uma amostra tem origem biológica, cientistas precisariam reunir diferentes evidências e descartar explicações não biológicas e possíveis contaminações.
Fontes: artigo publicado na Nature Communications e comunicado da Universidade de Osaka.