Amostras da Chang’e 6 revelam forma incomum de ferro que pode guardar pistas do antigo campo magnético lunar
Uma estrutura de ferro inesperada
O ferro pode assumir diferentes estruturas cristalinas, chamadas de fases. A forma mais comum em condições ambientes na Terra é o ferro alfa (α-Fe). Já o ferro gama (γ-Fe) tem os átomos organizados em uma estrutura cúbica de faces centradas e costuma ser estável apenas em temperaturas elevadas — aproximadamente entre 912 °C e 1.394 °C.
Na Lua, onde as temperaturas da superfície são muito mais baixas, essa forma do metal tende a se transformar quando esfria. Por isso, sua identificação em material lunar foi uma surpresa. A equipe encontrou partículas nanométricas de γ-Fe dentro de fragmentos de vidro de impacto presentes nas amostras da Chang’e 6.
O estudo analisou dois fragmentos de vidro. Neles, os pesquisadores identificaram numerosas partículas de ferro em escala nanométrica e confirmaram que algumas estavam na fase gama. O resultado não significa que grandes depósitos desse material tenham sido encontrados na Lua: trata-se de partículas minúsculas examinadas em laboratório.
Impactos podem ter criado as condições necessárias
Os pesquisadores propõem que impactos na superfície lunar tenham aquecido e derretido materiais, criando condições para a formação do ferro gama. O resfriamento muito rápido do material após o impacto pode ter ajudado a preservar essa estrutura. Pequenas quantidades de carbono e de outros elementos, além da matriz vítrea ao redor das partículas, também podem ter contribuído para estabilizá-la.
Essa explicação é uma hipótese apoiada pelas análises, não uma reconstrução definitiva de como cada partícula se formou. A composição e as condições exatas dos impactos envolvidos ainda precisam ser investigadas.
Partículas que podem guardar registros magnéticos
Com uma técnica chamada holografia eletrônica fora do eixo, a equipe examinou o comportamento magnético das partículas. As maiores apresentaram uma configuração estável conhecida como vórtice magnético, na qual a orientação da magnetização forma um padrão circular. Elas também mantiveram uma resposta magnética estável quando expostas a um campo externo.
Essa propriedade sugere que o ferro gama pode atuar como um registro de informações magnéticas preservadas no material lunar. Como a Lua não possui hoje um campo magnético global, estudar minerais capazes de guardar vestígios de magnetismo pode ajudar a reconstruir como o campo lunar mudou ao longo do tempo e investigar o papel de impactos nessa história.
Os cientistas ainda não demonstraram que essas partículas, por si só, comprovem a existência ou a duração de um antigo campo magnético global. A descoberta amplia o conjunto de materiais que podem ser estudados para responder a essas questões. Pesquisas futuras deverão esclarecer como o ferro gama se formou e que tipo de informação magnética ele consegue preservar.
Fontes:
Academia Chinesa de Ciências — Scientists Find Lunar “Magnetic Fossil” in Chang’e-6 Samples
PNAS — Magnetic vortex state of natural lunar γ-Fe
Chemistry World — Lunar samples returned by China’s Chang’e 6 mission contain rare, highly magnetic iron allotrope