A Via Láctea pode ter sofrido uma “virada” de mais de 90 graus

Uma colisão ocorrida bilhões de anos atrás pode ter mudado drasticamente a orientação do disco da Via Láctea. Simulações de galáxias semelhantes à nossa indicam que o disco pode ter sofrido uma “virada” de mais de 90 graus, alterando as trajetórias de muitas estrelas — talvez até a do Sol. O cenário é uma hipótese baseada em simulações e em características observadas da Galáxia, não um movimento registrado diretamente.

Impressão artística dos destroços da galáxia Gaia-Enceladus durante uma fusão simulada com a Via Láctea
Impressão artística dos destroços da galáxia Gaia-Enceladus em uma simulação de fusão com a Via Láctea. As setas amarelas representam posições e movimentos de estrelas associados à galáxia anã no modelo — não são trajetórias observadas nessa colisão específica.

Crédito: ESA (impressão artística e composição); Koppelman, Villalobos e Helmi (simulação). Licença: CC BY-SA 3.0 IGO. Imagem reproduzida sem alterações.


A pista pode estar no halo estelar

A maior parte das estrelas da Via Láctea está distribuída em um disco espiral. Ao redor dele existe um halo estelar mais amplo e rarefeito, que inclui estrelas incorporadas à Galáxia durante antigas fusões com galáxias menores.

O halo estelar da Via Láctea gira lentamente, mas a razão para esse movimento ainda é investigada. Em simulações de 25 galáxias parecidas com a nossa, a equipe da Durham University encontrou uma associação: as galáxias com halos de rotação mais lenta tinham maior probabilidade de ter passado por uma grande fusão quase frontal e por uma mudança de orientação do disco superior a 90 graus.

Essa relação levou os pesquisadores a considerar se a Via Láctea também passou por uma mudança desse tipo. A hipótese combina o movimento lento do halo com uma colisão antiga que já é conhecida por meio de dados da missão Gaia.

A antiga colisão com Gaia-Sausage-Enceladus

Os dados da Gaia indicam que a Via Láctea incorporou uma galáxia anã chamada Gaia-Sausage-Enceladus há cerca de 10 a 11 bilhões de anos. Essa fusão antiga pode corresponder ao tipo de colisão frontal observado nas simulações. Com base nessa semelhança, os pesquisadores propõem que o disco da Via Láctea também possa ter mudado de orientação durante sua história.

Se isso ocorreu, muitas estrelas podem ter seguido trajetórias diferentes das atuais. O próprio Sol talvez tenha sido afetado pela mudança do disco, mas essa possibilidade é uma inferência do modelo — não uma reconstrução definitiva da órbita passada do Sistema Solar.

Uma hipótese a ser testada

Uma “virada” do disco não significa que a Via Láctea esteja hoje girando de cabeça para baixo. A expressão descreve uma mudança de orientação que teria ocorrido durante a evolução da Galáxia, em meio a uma fusão com outra galáxia. Como o episódio aconteceu há bilhões de anos, os astrônomos dependem de pistas deixadas nos movimentos das estrelas e de comparações com simulações.

Os resultados foram apresentados por Kirill Batrakov, da Durham University, no National Astronomy Meeting de 2026. Novos dados da Gaia poderão ajudar a investigar a história da Galáxia e a avaliar se essa interpretação corresponde ao passado da Via Láctea.


Fontes: