O planeta GJ 3090 b tem cerca de 2,2 vezes o raio da Terra e completa uma volta ao redor de sua estrela em aproximadamente 2,9 dias. A órbita retrógrada surpreendeu os pesquisadores porque o sistema não tem uma estrela ou um planeta gigante conhecido que explique facilmente esse desalinhamento.
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| Ilustração artística do sistema GJ 3090. |
O sistema de GJ 3090, localizado a cerca de 73 anos-luz da Terra, foge desse padrão. Seu planeta mais interno, GJ 3090 b, percorre uma órbita fortemente desalinhada e retrógrada. O resultado foi publicado em setembro de 2026 na revista científica Astronomy & Astrophysics.
Um planeta intermediário entre a Terra e Netuno
GJ 3090 b é classificado como um sub-Netuno, uma categoria comum entre os exoplanetas já identificados, mas sem um equivalente direto em nosso Sistema Solar. Ele tem aproximadamente 2,18 vezes o raio da Terra e 4,52 vezes a massa terrestre.
O planeta orbita uma anã vermelha — uma estrela menor e mais fria que o Sol — em aproximadamente 2,9 dias. Ou seja, está muito perto de sua estrela em comparação com a distância da Terra ao Sol. O sistema também abriga outros sinais planetários: há um sub-Netuno confirmado que não passa diante da estrela visto da Terra e um candidato a planeta com período orbital de cerca de 13 dias.
Como os astrônomos mediram o desalinhamento
O planeta foi identificado inicialmente pelo TESS, telescópio espacial da NASA que procura exoplanetas observando pequenas quedas no brilho das estrelas. Essas quedas acontecem quando um planeta passa diante de sua estrela, num evento chamado trânsito.
Para descobrir a orientação da órbita, a equipe estudou a luz de GJ 3090 durante esses trânsitos. A estrela gira: uma parte de sua superfície se move na direção da Terra, enquanto outra se afasta. Isso altera ligeiramente as características da luz que recebemos. Quando o planeta bloqueia diferentes partes da estrela ao passar à frente dela, também muda, de forma sutil, o sinal medido pelos instrumentos. Esse efeito permite comparar o caminho do planeta com a rotação da estrela. Para obter os dados, os pesquisadores observaram seis trânsitos com o espectrógrafo NIRPS, instalado no telescópio de 3,6 metros do Observatório de La Silla, no Chile. Também fizeram observações complementares com o HARPS. A medição final foi determinada principalmente pelos dados de maior qualidade do NIRPS.
A análise indicou uma obliquidade tridimensional de cerca de 136 graus, com uma margem de incerteza de +24° e −18°. Em termos simples, ângulos acima de 90 graus indicam movimento retrógrado. Os dados favorecem essa interpretação e afastam, a cerca de 2,5 sigmas, a possibilidade de a órbita ser perpendicular à rotação da estrela.
Isso não quer dizer que o planeta gire sobre o próprio eixo ao contrário. A descoberta se refere ao seu movimento ao redor da estrela: é esse percurso orbital que se dá em sentido oposto à rotação estelar.
O que torna o sistema tão intrigante?
Órbitas muito inclinadas ou retrógradas podem surgir quando a gravidade de um objeto grande altera a trajetória de um planeta. Em alguns sistemas, uma estrela companheira ou um planeta gigante distante pode atuar como perturbador gravitacional ao longo do tempo.
Mas as observações de GJ 3090 não encontraram evidências de um companheiro massivo desse tipo. Os pesquisadores usaram medições da velocidade da estrela, imagens de alta resolução e dados da missão Gaia para investigar possíveis estrelas ou planetas grandes nas proximidades. Isso não prova que não exista qualquer objeto ainda não detectado, mas restringe as explicações que dependem de um grande perturbador conhecido.
O caso também chama atenção por envolver um sistema com vários planetas. Em outros sistemas multiplanetários com órbitas muito desalinhadas, costuma haver um objeto massivo que pode explicar a configuração. GJ 3090 é o primeiro sistema desse tipo identificado sem evidência de uma estrela companheira larga ou de um planeta externo massivo que explique o desalinhamento.
A hipótese de um segundo disco
A equipe propõe que o sistema talvez tenha recebido, numa etapa posterior de sua formação, material que originou um segundo disco de gás, inclinado em relação à rotação da estrela. Os planetas poderiam ter se formado nesse disco e migrado em direção à estrela, preservando parte de sua orientação incomum.
Essa possibilidade ajudaria a explicar por que a órbita do planeta é tão inclinada sem exigir a presença atual de um grande objeto companheiro. Os autores consideram esse cenário uma explicação plausível — e a que melhor se ajusta aos dados disponíveis —, mas não observaram diretamente o antigo disco. Portanto, a hipótese ainda precisa ser testada por estudos futuros.
Uma pista sobre como os sistemas planetários se formam
A descoberta não significa que os modelos atuais de formação de planetas estejam descartados. Um único sistema não basta para mudar o quadro geral. Mas GJ 3090 mostra que mesmo planetas relativamente pequenos podem terminar em órbitas extremas e que nem toda configuração incomum precisa ser explicada por um planeta gigante ou por uma estrela companheira.
Entender como um sub-Netuno chegou a essa órbita pode ajudar os astrônomos a comparar diferentes caminhos de formação e migração. Como estrelas anãs vermelhas são abundantes na galáxia e planetas sub-Netunos são comuns, outros sistemas desse tipo poderão revelar se GJ 3090 é um caso raríssimo ou parte de uma diversidade ainda pouco observada.
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