Com cerca de 302 km de diâmetro, o maior centauro conhecido possui dois anéis estreitos. Observações recentes indicam que essas estruturas podem estar mudando.
Entre as órbitas de Saturno e Urano existe um pequeno corpo gelado que ajudou a ampliar o que sabemos sobre os anéis no Sistema Solar. Seu nome é Chariklo. Classificado como um centauro, ele tem cerca de 302 km de diâmetro e é o maior objeto conhecido dessa população.
A característica que tornou Chariklo especialmente famoso foi descoberta em 2013: o corpo é acompanhado por dois anéis estreitos. Até então, sistemas de anéis eram associados principalmente aos planetas gigantes. A descoberta mostrou que estruturas desse tipo também podem existir ao redor de objetos muito menores.
Centauros são pequenos corpos do Sistema Solar exterior que percorrem órbitas na região dos planetas gigantes. Chariklo está entre as órbitas de Saturno e Urano e é composto por material gelado.
Esses objetos são estudados porque ocupam uma região dinâmica do Sistema Solar, onde a gravidade dos planetas gigantes pode influenciar suas trajetórias. Embora sejam pequenos em comparação com os planetas, podem guardar pistas importantes sobre a composição e a evolução das regiões mais distantes do Sol.
A descoberta dos anéis.
Os anéis de Chariklo foram encontrados por meio de uma técnica chamada ocultação estelar. Ela acontece quando um objeto do Sistema Solar passa diante de uma estrela distante, bloqueando sua luz por um breve período. Observando como o brilho da estrela diminui e se recupera, os astrônomos conseguem obter informações sobre o objeto que passou à frente dela.
Durante a observação de Chariklo, a estrela pareceu piscar antes de desaparecer atrás do corpo e voltou a piscar quando reapareceu. Esses breves bloqueios adicionais revelaram que havia duas estruturas ao redor do centauro: seus anéis.
Os dois anéis ficam aproximadamente a 390 e 405 quilômetros do centro de Chariklo e têm apenas alguns quilômetros de largura. Por serem estreitos e distantes, não são facilmente vistos como uma imagem direta. Sua presença é identificada sobretudo por medições cuidadosas da luz das estrelas.
O que o James Webb revelou.
Em outubro de 2022, o Telescópio Espacial James Webb observou uma nova ocultação de Chariklo. Foi a primeira ocultação estelar planejada e observada com sucesso pelo telescópio. Como o Webb também observa em comprimentos de onda infravermelhos, os cientistas puderam estudar o sistema em faixas de luz difíceis de analisar a partir da superfície da Terra.
As observações permitiram investigar melhor o material dos anéis e acompanhar suas características. Em um estudo publicado em setembro de 2026, pesquisadores relataram sinais de que a opacidade dos anéis mudou: o anel interno parece cerca de 50% mais opaco do que em medições anteriores, enquanto o sinal do anel externo diminuiu aproximadamente 60% em relação a 2017.
A opacidade indica quanto da luz que passa por uma estrutura é bloqueada. Os resultados sugerem que os anéis podem estar evoluindo, embora ainda seja necessário obter novas observações para confirmar a interpretação e entender exatamente o que está acontecendo.
Por que os anéis podem estar mudando?
Os cientistas ainda não determinaram a causa das variações. Uma possibilidade é que o anel externo esteja perdendo material gradualmente. Já o aumento de opacidade observado no anel interno poderia estar relacionado à chegada de partículas ou à fragmentação de grãos maiores em partículas menores.
Essas explicações continuam sendo hipóteses. Também será importante verificar se as diferenças observadas são realmente mudanças ocorridas ao longo do tempo ou se estão relacionadas aos comprimentos de onda usados em cada observação. Novas ocultações, especialmente em luz visível, poderão ajudar a distinguir entre essas possibilidades.
Um sistema pequeno, mas importante
A descoberta dos anéis de Chariklo ampliou a compreensão dos cientistas sobre onde essas estruturas podem existir. Os anéis não são exclusivos de planetas gigantes: um corpo relativamente pequeno e distante também pode abrigar material organizado em órbita.
Estudar Chariklo pode ajudar a esclarecer como partículas se mantêm agrupadas ao redor de um objeto pequeno e como os anéis se transformam com o passar do tempo. A origem dessas estruturas e sua estabilidade ainda são questões em aberto.
Por enquanto, Chariklo segue sendo um dos exemplos mais intrigantes do Sistema Solar exterior: um centauro gelado, muito menor que os planetas, mas cercado por anéis que continuam revelando novas pistas a cada observação.
Fontes: NASA — observações do James Webb em Chariklo
· Observatório de Paris — mudanças nos anéis de Chariklo
· Observatório Europeu do Sul — descoberta dos anéis