Nota de atualização — outubro de 2026: o estudo de 2017 citado nesta matéria propôs uma explicação geoquímica para parte da água que desapareceu da superfície de Marte. O dado de “25% a mais” compara a capacidade de certos minerais marcianos e terrestres de reter água em sua estrutura; não significa que 25% de toda a água marciana tenha sido encontrada dentro das rochas. Pesquisas posteriores também apontam para água presa em minerais da crosta, mas a proporção exata continua incerta.
Marte apresenta sinais geológicos de um passado com água líquida na superfície: antigos vales, canais e depósitos indicam que água fluiu e se acumulou em diferentes regiões. O planeta perdeu grande parte dessa água ao longo de bilhões de anos, mas os cientistas ainda investigam quanto escapou para o espaço, quanto ficou congelado no subsolo e quanto foi incorporado às rochas.
O que propôs o estudo de 2017
Um estudo publicado em 2017 na revista Nature, liderado por Jon Wade, examinou como a composição das rochas dos planetas pode influenciar o destino da água durante sua formação e evolução. Os autores apontaram que conjuntos de minerais metamórficos em lavas marcianas relativamente ricas em ferro podem reter cerca de 25% mais água estruturalmente ligada do que conjuntos equivalentes da Terra.
“Água estruturalmente ligada” não é um lago líquido dentro da rocha. São componentes de água incorporados à estrutura de determinados minerais. O estudo propôs que a composição de Marte pode ter favorecido a retenção de mais água no interior do planeta, ajudando a explicar por que sua superfície acabou tão seca. Trata-se de uma interpretação baseada em modelos geoquímicos, não de uma medição direta de toda a água armazenada nas rochas marcianas.
O que pesquisas posteriores acrescentaram
Em 2021, outra pesquisa financiada pela NASA propôs que uma parcela substancial da água antiga de Marte pode ter ficado presa em minerais da crosta. A estimativa do estudo foi ampla — de 30% a 99% — e depende dos modelos usados para reconstruir a história da água. Os autores não descartaram que parte também tenha escapado para o espaço.
A faixa é grande porque a quantidade original de água e sua distribuição ao longo do tempo são difíceis de reconstruir. Por isso, ela não deve ser lida como um inventário confirmado do que existe hoje no subsolo, nem como prova de que toda essa água possa ser extraída.
Marte já teve um oceano?
Em 2015, uma análise de proporções entre diferentes tipos de hidrogênio na atmosfera marciana levou pesquisadores da NASA a estimar que Marte já teve um grande reservatório de água, possivelmente um oceano nas terras baixas do norte. Essa reconstrução se baseia em medições e modelos; não significa que a extensão ou a profundidade desse oceano tenham sido observadas diretamente.
E as supostas correntes de água salgada?
Em 2015, a identificação de sais hidratados em algumas manchas sazonais nas encostas marcianas foi anunciada como possível indício de salmouras. Estudos posteriores, porém, mostraram que as chamadas linhas recorrentes de encosta podem ser formadas por fluxos secos de grãos. Elas não constituem, por si só, prova de água líquida correndo atualmente pela superfície.
As diferentes linhas de pesquisa — escape atmosférico, gelo subterrâneo, água ligada a minerais e antigas massas líquidas na superfície — ajudam a reconstruir a história de Marte. Nenhuma delas, isoladamente, explica todos os detalhes do destino da água no planeta.
Leia também: “Lagos” em Marte são de argila, não de água e a interpretação dos reflexos de radar sob o polo sul de Marte.
Fontes:
Wade et al. — estudo de 2017 sobre a evolução da água em Marte e na Terra
NASA/JPL — pesquisa de 2021 sobre água retida na crosta marciana
NASA — estimativa de um antigo oceano em Marte
NASA/JPL — interpretação das manchas recorrentes como fluxos de material granular