Cristais de gipsita encontrados pelo Zhurong apontam para água líquida recente em Marte

Rochas claras observadas pelo rover chinês Zhurong em Marte podem guardar pistas de um período em que água líquida ainda alcançava a superfície do planeta. Uma nova análise dos dados da missão identificou formas cristalinas compatíveis com selenita, uma variedade de gipsita que se forma quando água salgada se concentra e precipita minerais.

O rover Zhurong ao lado do módulo de pouso Tianwen-1 na superfície de Marte
O rover Zhurong e o módulo de pouso Tianwen-1 em Marte. A imagem é ilustrativa da missão e não mostra os cristais analisados no estudo. Foto: China News Service, CC BY 4.0, via Wikimedia Commons.

O Zhurong pousou em maio de 2021 na planície de Utopia Planitia, no hemisfério norte marciano. Durante o percurso, suas câmeras registraram rochas achatadas e claras que apareciam sob a areia. Os pesquisadores reexaminaram essas imagens e combinaram a análise das formas dos cristais com dados de instrumentos que investigam a composição dos materiais por laser e pela luz infravermelha.

Cristais de mineral, não de gelo

O estudo concluiu que as formas observadas são compatíveis com cristais de selenita, uma variedade de gipsita. A gipsita é um mineral de sulfato de cálcio que contém moléculas de água incorporadas à sua estrutura. Isso não significa que o rover tenha encontrado gelo: os cristais são minerais que podem se formar quando a água líquida salgada evapora ou se concentra.

Os pesquisadores classificam o depósito como um possível evaporito primário — uma camada de minerais que se cristaliza diretamente a partir da água, em vez de surgir apenas pela alteração posterior de uma rocha. A interpretação é diferente de outras descobertas de sulfatos em Marte e pode ajudar a reconstruir como a água circulou naquela região.

Água em Marte há cerca de 760 milhões de anos?

A camada rica em minerais está em um terreno cuja idade foi estimada em aproximadamente 760 milhões de anos, com base na quantidade de crateras de impacto na região. Essa estimativa se refere à idade do terreno — não é uma medição direta da idade dos cristais nem uma data exata para a presença da água.

Para formar o depósito, a equipe calcula que teria sido necessária uma coluna acumulada de água equivalente a pelo menos 6,25 a 25 metros ao longo do tempo. Isso não quer dizer que existiu um lago com essa profundidade de uma só vez. Segundo o estudo, a água líquida presente em cada ocasião provavelmente formava uma camada muito mais rasa, da ordem de um metro ou menos.

Uma hipótese apresentada pelos pesquisadores é que água subterrânea salgada tenha subido em episódios até a superfície, possivelmente com a ajuda de calor relacionado à atividade magmática. Ali, ela poderia ter alimentado um corpo de água raso, em um ambiente que seria em grande parte coberto por gelo. Essa é uma explicação proposta para os dados, não uma observação direta do processo.

Uma possível cápsula do tempo

Cristais grandes de gipsita podem, em princípio, aprisionar pequenas inclusões de fluido — bolsas microscópicas de salmoura. Se elas estiverem preservadas nas rochas de Marte, poderão oferecer informações sobre a composição química da água e o ambiente subterrâneo do planeta. A presença dessas inclusões, porém, ainda é uma possibilidade a ser investigada, e não uma confirmação de que o rover as detectou.

O resultado amplia a história contada pelas observações do Zhurong: além de registrar a paisagem marciana, o rover pode ter encontrado sinais de um episódio de atividade aquosa muito mais recente do que o período em que se acreditava que a superfície de Marte havia se tornado fria e seca. Como não houve coleta e retorno de amostras à Terra, a identificação dos minerais se baseia nos dados obtidos no local.

O trabalho foi publicado na revista científica Nature Astronomy. Para conhecer o início da missão e as primeiras imagens feitas pelo rover, veja também a matéria do Space News Pb sobre as primeiras imagens de Marte feitas pelo Zhurong.

Fontes