Rochas encontradas na cratera Jezero registram pelo menos três episódios de interação com água, incluindo um evento subterrâneo envolvendo fluidos aquecidos.
A história da água em Marte parece ter sido muito mais complexa do que indicavam as primeiras observações da cratera Jezero. Dados obtidos pelo rover Perseverance, da NASA, mostram que determinadas rochas da região foram modificadas pela água em pelo menos três momentos diferentes.
A descoberta foi feita na chamada Unidade Marginal, uma formação geológica localizada na borda interna da cratera. O local fica próximo à margem de um antigo lago marciano, que existiu há bilhões de anos. Por isso, os cientistas esperavam encontrar principalmente rochas sedimentares, formadas pelo acúmulo gradual de areia, argila e silte no fundo do lago.
As rochas sedimentares são particularmente importantes para a astrobiologia porque, na Terra, podem preservar sinais químicos e físicos de antigos ambientes habitáveis — incluindo vestígios de microrganismos. No entanto, o Perseverance encontrou algo diferente do esperado: a Unidade Marginal é formada principalmente por rochas ígneas, originadas do resfriamento de magma.
Uma surpresa abaixo da antiga margem do lago.
Antes da chegada do rover, observações feitas por sondas em órbita haviam identificado fortes sinais de minerais carbonatos na região. Na Terra, os carbonatos costumam se formar quando a água interage com rochas em ambientes rasos, como lagos, rios e oceanos.
A hipótese inicial era que esses minerais tivessem surgido diretamente da interação entre a água do antigo lago de Jezero e os sedimentos depositados em seu fundo. As análises do Perseverance, porém, indicam uma história mais elaborada.
As rochas da Unidade Marginal parecem ter se formado originalmente muito abaixo da superfície, a partir de uma grande massa de magma que resfriou lentamente. Esse processo permitiu o crescimento de cristais relativamente grandes, principalmente de olivina, um mineral rico em magnésio e ferro.
Com o passar do tempo, a erosão removeu as camadas superiores do terreno e expôs essas rochas. Mais tarde, diferentes sistemas de água penetraram na formação, alterando sua composição química e deixando marcas que ainda podem ser observadas pelo rover.
Três episódios de alteração.
Os cientistas conseguiram reconstruir a sequência dos eventos, embora ainda não saibam determinar com precisão a idade de cada um deles.
No primeiro episódio, águas subterrâneas ricas em dióxido de carbono reagiram com a olivina. Essa reação produziu carbonatos que preencheram fraturas na rocha. Atualmente, essas áreas aparecem como cristas, porque os minerais carbonatados são mais resistentes à erosão do que o material ao redor.
O segundo contato com a água pode ter ocorrido durante a existência do antigo lago da cratera Jezero. Em regiões que ficavam abaixo do nível da água, os cristais de olivina foram fraturados e passaram a apresentar sinais de alteração. Os pesquisadores também encontraram sílica associada a essas transformações.
O terceiro episódio foi ainda mais surpreendente. Em uma parte da Unidade Marginal, o Perseverance identificou veios minerais com aproximadamente 25 centímetros de espessura, contendo compostos como sulfato de cálcio e fluorita.
A presença de fluorita é especialmente importante porque esse mineral costuma se formar quando água quente circula por rochas vulcânicas. Isso sugere que, depois da formação do lago, a região passou por um período de atividade hidrotermal — um sistema subterrâneo alimentado por água aquecida no interior do planeta.
O papel do instrumento SuperCam.
A descoberta foi possível graças, em grande parte, ao instrumento SuperCam, instalado no topo do mastro do Perseverance. Ele analisa a composição das rochas usando diferentes técnicas, incluindo um laser capaz de atingir alvos localizados a até 6,5 metros de distância.
Quando o laser atinge uma rocha, uma pequena quantidade de material é transformada em plasma. A luz emitida por esse plasma contém informações sobre os elementos químicos presentes no alvo.
Com esse método, o rover já analisou mais de 185 alvos rochosos na Unidade Marginal. A combinação dos dados químicos com as imagens e observações geológicas permitiu aos pesquisadores distinguir áreas que praticamente não foram alteradas pela água de outras que sofreram transformações profundas.
Nas partes mais elevadas da formação, a olivina aparece relativamente preservada e há poucos sinais de contato com água. Já nas áreas mais baixas, próximas ao antigo leito do lago, as rochas estão muito mais modificadas, com fraturas preenchidas por minerais e evidências de reações químicas.
Um possível ambiente favorável à vida
A descoberta não representa uma prova de que existiu vida em Marte. Até o momento, nenhum organismo ou fóssil foi identificado na Unidade Marginal.
Mesmo assim, os resultados são importantes para a busca por sinais de vida antiga. Na Terra, a interação entre água e olivina pode liberar hidrogênio, que serve como fonte de energia para alguns microrganismos. As reações também podem produzir carbonatos e sílica, minerais capazes de preservar registros químicos do ambiente e, em certas condições, vestígios de atividade biológica.
Isso torna as rochas da Unidade Marginal alvos prioritários para estudos futuros. O Perseverance está coletando e armazenando amostras que poderão ser analisadas em laboratórios terrestres em uma futura missão de retorno de amostras marcianas.
As análises realizadas na Terra seriam muito mais detalhadas do que as possíveis com os instrumentos do rover. Os cientistas poderiam investigar a idade exata das rochas, a composição dos fluidos que circularam por elas e a existência de moléculas orgânicas ou estruturas microscópicas preservadas.
Uma história climática em transformação.
A descoberta também ajuda a reconstruir a evolução do clima marciano. Marte provavelmente teve, em seu passado remoto, uma atmosfera mais espessa e condições capazes de manter água líquida na superfície. Com o enfraquecimento do campo magnético e a perda gradual da atmosfera, o planeta se tornou frio, seco e hostil.
As rochas da Unidade Marginal funcionam como um registro dessa transição. Elas mostram que a água não esteve presente apenas em um único período, mas circulou pelo subsolo e pela superfície em diferentes fases.
O cenário revelado pelo Perseverance é o de um Marte geologicamente ativo, com lagos antigos, águas subterrâneas e possíveis sistemas hidrotermais. Esses ambientes podem ter surgido, desaparecido e retornado ao longo de milhões de anos.
Para os pesquisadores, compreender essa sequência é essencial para determinar quando e por quanto tempo Marte apresentou condições potencialmente habitáveis.
A pesquisa foi publicada na revista científica Communications Earth & Environment e conduzida com participação do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, da Universidade Purdue, da Universidade do Havaí, do Laboratório Nacional de Los Alamos e do instituto francês IRAP.
Fonte: NASA/JPL