No centro da Via Láctea, a cerca de 27 mil anos-luz da Terra, existe um objeto compacto com aproximadamente 4,3 milhões de vezes a massa do Sol. Chamado Sagitário A — ou Sgr A —, ele é o buraco negro supermassivo mais próximo da Terra conhecido. Embora sua gravidade seja enorme, ele não é um “aspirador cósmico” que suga tudo ao redor: a matéria precisa se aproximar o suficiente para ser capturada. Parte do gás que circula nas proximidades aquece e emite radiação antes de atravessar o horizonte de eventos, a fronteira a partir da qual nem mesmo a luz consegue escapar.
A pesquisa sobre Sagitário A* avançou muito desde a primeira imagem de sua região central, divulgada em 2022 pela colaboração Event Horizon Telescope (EHT). A imagem mostra um anel luminoso em torno de uma área escura — a chamada sombra do buraco negro, formada pela combinação dos efeitos da gravidade sobre a luz e da emissão do gás ao redor. Ela não é uma fotografia do horizonte de eventos em si, mas oferece uma observação direta do ambiente extremo próximo ao objeto.
Essa imagem também ajuda a contextualizar uma matéria mais antiga do Space News Pb, publicada em 2019. Naquele momento, os cientistas se preparavam para divulgar a primeira imagem de um buraco negro: a de M87, no centro de outra galáxia. A imagem de Sagitário A só seria apresentada três anos depois.
Uma estrela em uma órbita extraordinária
Um dos resultados mais recentes veio do acompanhamento de estrelas que orbitam Sagitário A*. Em artigo publicado na revista Nature em setembro de 2026, uma equipe internacional anunciou a identificação de S301, uma estrela fraca que completa uma órbita ao redor do buraco negro em apenas 8,7 anos. É o menor período orbital conhecido até agora para uma estrela nessa região.
A órbita de S301 é muito alongada. No ponto de maior aproximação, a estrela passa a cerca de 136 a 142 raios de Schwarzschild do buraco negro — aproximadamente dez vezes mais perto do que a estrela S2, uma das mais estudadas do centro galáctico. Segundo os cálculos da equipe, S301 pode atingir uma velocidade de cerca de 25 mil quilômetros por segundo, mais de 8% da velocidade da luz.
A estrela não está sendo despedaçada: os dados indicam que ela é pequena o bastante para sobreviver à passagem. Sua órbita, porém, é afetada pela intensa gravidade local. A equipe mediu uma precessão relativística — uma mudança gradual na orientação da órbita — compatível com as previsões da relatividade geral. A precessão observada resulta principalmente da curvatura do espaço-tempo causada pela massa do buraco negro.
O aspecto mais promissor é que a órbita de S301 pode ajudar a medir o spin de Sagitário A*, isto é, o quanto ele gira. Um buraco negro em rotação também arrasta o espaço-tempo ao redor, produzindo efeitos gravitacionais adicionais. No caso de S301, eles poderão se tornar detectáveis com anos de observações precisas. Os autores estimam que exista uma possibilidade concreta de medir diretamente o spin em cerca de uma década, usando instrumentos atuais ou planejados.
Isso ainda não significa que a rotação já foi medida. A equipe não conseguiu obter informações espectroscópicas suficientes para determinar a velocidade da estrela na direção da Terra, e o artigo apresenta duas orientações possíveis para sua órbita. O acompanhamento futuro — e a obtenção de dados mais completos — será essencial para reduzir essas incertezas. A descoberta de S301 representa uma nova oportunidade de investigação, não uma resposta final.
Clarões que revelam a atividade ao redor do buraco negro
Sagitário A* também é observado em busca de mudanças rápidas no brilho. O material que circula perto dele é irregular e turbulento, e às vezes ocorrem clarões intensos em raios X e no infravermelho. Eles podem estar ligados a regiões de plasma aquecido e acelerado por processos magnéticos. Algumas dessas regiões, chamadas de “pontos quentes”, talvez acompanhem o movimento do gás ao redor do buraco negro por um curto período.
Observações em infravermelho e em ondas milimétricas registraram mudanças na posição aparente do brilho e na polarização da radiação durante episódios de atividade. Esses sinais podem ajudar os pesquisadores a estudar o movimento do plasma, a orientação dos campos magnéticos e a dinâmica do gás muito próximo ao buraco negro.
Mas a interpretação ainda está em debate. Uma revisão recente reúne evidências favoráveis ao modelo dos pontos quentes e também destaca suas limitações: os clarões são variáveis, as observações nem sempre apresentam os mesmos padrões e um ambiente turbulento pode produzir estruturas mais complexas do que uma única região luminosa em órbita. Reconexões magnéticas, bolhas de plasma e mudanças no fluxo de matéria estão entre os processos investigados para explicar esses episódios.
O que os cientistas querem descobrir
Os próximos anos devem combinar observações de estrelas, acompanhamento de clarões e novas imagens do entorno de Sagitário A*. O EHT também trabalha para aprimorar sua rede de radiotelescópios, o que poderá permitir observações mais detalhadas da estrutura e das mudanças do gás ao redor do buraco negro. Uma espécie de “filme” dessa região ajudaria a acompanhar como o brilho e a polarização evoluem com o tempo.
A prioridade imediata é continuar medindo a órbita de S301 e buscar dados que permitam determinar sua velocidade em relação à Terra. A longo prazo, observações ainda mais precisas poderão testar melhor como a gravidade se comporta nesse regime extremo e investigar se Sagitário A* segue as previsões da relatividade geral para buracos negros em rotação.
Assim, Sagitário A* deixou de ser apenas um objeto cuja existência é inferida pelo movimento das estrelas ao redor. Hoje, sua sombra já foi observada, seu ambiente é monitorado em diferentes comprimentos de onda e uma estrela em órbita excepcionalmente próxima pode abrir caminho para medir sua rotação. O retrato científico ainda está sendo construído — e cada nova observação ajuda a revelar como a gravidade funciona no coração da Via Láctea.
Fontes consultadas: artigo da *Nature* sobre a estrela S301 e revisão recente sobre a variabilidade de Sagitário A* no arXiv