A missão espacial SMILE, desenvolvida em conjunto pela Agência Espacial Europeia (ESA) e pela Academia Chinesa de Ciências, registrou uma visão panorâmica e contínua do anel da aurora boreal ao redor do Polo Norte. O nome SMILE vem do inglês Solar wind Magnetosphere Ionosphere Link Explorer, que pode ser traduzido como “Explorador da Conexão entre o Vento Solar, a Magnetosfera e a Ionosfera”. A missão foi criada para investigar como a atividade do Sol interage com o ambiente magnético da Terra.
Um dos destaques das primeiras imagens científicas da missão é a visão completa do anel auroral obtida em ultravioleta. O registro não mostra uma aurora inédita na natureza: a novidade é a capacidade de observar toda essa estrutura de uma só vez, durante um período prolongado e em uma faixa de luz invisível aos olhos humanos.
As imagens foram captadas em 24 de julho de 2026, pouco depois de o instrumento ultravioleta da sonda começar a operar. Segundo a ESA, é a primeira vez desde 2008 que uma câmera registra o anel completo das luzes do norte em ultravioleta. O equipamento pode acompanhar a aurora por até 45 horas seguidas, permitindo observar mudanças que poderiam passar despercebidas em registros mais curtos.
Uma aurora conhecida, observada de outra maneira
Auroras surgem quando partículas energéticas associadas ao vento solar interagem com o campo magnético terrestre e com gases na alta atmosfera. Essas interações fazem os gases emitirem luz. A aurora boreal aparece principalmente nas regiões próximas ao Polo Norte; no hemisfério sul, o fenômeno correspondente é chamado de aurora austral.
A forma e a intensidade das auroras podem mudar conforme varia a atividade solar e a maneira como o vento solar encontra o campo magnético da Terra. A sequência do SMILE mostra atividade associada a uma perturbação magnética provocada pela chegada de partículas solares. Com observações contínuas, os cientistas podem acompanhar como essa atividade se desloca e se transforma em escala planetária.
O instrumento da missão registra a emissão ultravioleta, uma faixa de luz que não pode ser vista diretamente pelos seres humanos. Esse tipo de observação permite estudar aspectos da aurora que não aparecem da mesma forma em fotografias comuns feitas do solo. Como o campo de visão abrange uma grande região, também é possível relacionar mudanças locais a processos que ocorrem em torno do planeta.
Por isso, chamadas sobre uma aurora “nunca vista antes” precisam ser interpretadas com cuidado: o fenômeno natural não é novo. O avanço está na perspectiva e na continuidade das observações — uma visão panorâmica do anel auroral em ultravioleta, acompanhada por muitas horas.
Uma missão para estudar a interação entre o Sol e a Terra
A sonda SMILE foi lançada em 19 de maio de 2026, a partir do Centro Espacial de Kourou, na Guiana Francesa, e chegou à órbita de observação em 20 de junho. Depois da etapa de testes em órbita, a missão iniciou suas operações científicas.
Além do imageador ultravioleta da aurora, a espaçonave transporta instrumentos para observar raios X, medir o campo magnético e analisar partículas de baixa energia. Em conjunto, essas medições ajudam a investigar como a energia e as partículas vindas do Sol interagem com a magnetosfera — a região dominada pelo campo magnético terrestre, que protege a Terra de parte do fluxo de partículas solares.
A missão pretende observar essa interação em escala ampla e acompanhar diferentes etapas do processo. Os dados podem ajudar os pesquisadores a compreender melhor as tempestades geomagnéticas, que, quando intensas, podem afetar satélites, sistemas de navegação e comunicação e, em situações mais severas, redes elétricas.
As auroras são uma manifestação visível dessa atividade, mas o interesse científico vai além das luzes no céu. Entender como a energia solar entra no ambiente próximo à Terra é importante para ampliar o conhecimento sobre o clima espacial e, no futuro, contribuir para previsões mais precisas de eventos capazes de interferir em tecnologias.
O que torna as imagens importantes
Imagens panorâmicas e prolongadas podem revelar padrões difíceis de identificar em registros curtos ou com campo de visão limitado. Ao acompanhar o anel auroral continuamente, os cientistas podem comparar as mudanças observadas com as medições dos outros instrumentos do SMILE e investigar como as partículas solares influenciam a alta atmosfera.
A divulgação do primeiro conjunto de dados também confirma que os instrumentos da missão estão funcionando após a etapa de testes. Para a ciência, este é um passo inicial: as imagens já oferecem uma nova perspectiva sobre a aurora, e as observações futuras poderão combinar registros visuais e medições para formar um quadro mais completo da interação entre o Sol e o campo magnético terrestre.
Fontes: Agência Espacial Europeia (ESA) · CGTN

